E o deserto florescerá!

E o deserto florescerá!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O RIO E O MAR

     Todos os rios correm para o mar, e contudo o mar não fica cheio; para onde os rios vão, para lá tornam a ir. (Ecl 1,7)
  
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    No final de semana fui com uma amiga à Vila de Regência, na foz do rio Doce. Contemplando a beleza do encontro do rio com o mar - tão belo que deu vontade de ficar ali, só contemplando - ficamos conversando sobre coisas da vida, coisas de Deus.

    Olhando para a foz do rio ficamos refletindo sobre onde ele nasceu e os lugares por onde passou... Um rio nasce pequenino, apenas uma fonte que brota da terra, e começa sua caminhada por vales e montes, onde às vezes forma belas cachoeiras. Ao longo do caminho vai recebendo água de pequenos riachos ou córregos maiores...  vai crescendo seu volume d’ água, podendo se tornar um rio caudaloso. Um grande rio.

    O rio corre sobre a terra e por onde passa vai fazendo o bem. Ele fecunda a terra às suas margens, fornece água para as pessoas, os animais e as plantações. Não por acaso os nossos antepassados construíram as vilas e cidades às margens de um rio. Por isso ele também foi desrespeitado e poluído por nós. Assim o rio corre até chegar ao mar, seu destino final.

    Podemos comparar nossa vida com um rio. Nascemos pequenos, indefesos, precisamos do cuidado de outro ser humano para que a vida se desenvolva em nós. Como o rio, recebemos influência de muitas pessoas – família, amigos, professores, sacerdotes...  Muitas pessoas nos formaram e contribuíram um pouco para nos tornarmos quem somos. Algumas pessoas marcaram negativamente nossa vida, nos machucaram... Elas também contribuíram com alguma coisa para nossa vida, pois no projeto de Deus nada se perde: Nós sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, dos que são chamados segundo seu desígnio. (Rm 8,28).

    Como precisamos respeitar o rio – não o poluindo ou construindo muito perto de suas margens – precisamos respeitar a nós mesmos não poluindo nossa alma e nosso corpo com o pecado, desequilíbrios e maldades que somos tentados a fazer.  Da mesma forma precisamos respeitar o outro que é filho de Deus, nosso irmão; às vezes marcado por uma história de vida dolorosa, que têm uma cultura e jeito de ser diferente do nosso. Acolher a nós mesmos, com nossa luz e sombra, acolher a vida que está em nós, mas não nos pertence, acolher o outro, acolher e respeitar a natureza, é fonte de sabedoria.

     Como o rio corre para o mar nós corremos para Deus, nosso destino final. Há rios curtos e rios longos. Há pessoas que vivem um tempo menor e outras vivem longos anos. O tempo que vivemos não importa. O que importa é corresponder ao sonho de Deus para nós, levando vida, bondade e beleza, por onde passarmos. Cada dia que passa nos aproxima mais da nossa foz: o mar de amor e misericórdia de Deus. Ele nos convida a render-nos numa entrega de amor. Deus é amor (1Jo 4,8).

Meu Deus e Pai,como o mar recebe as águas do rio, em Jesus Cristo, o Senhor me recebe quando vou ao seu encontro na oração.  
E no abraço de amor e paz o Senhor me perdoa, cura, liberta das dúvidas, medos, angústias, inquietações... 
Ó Espírito Santo lave minhas feridas e devolva-me a dignidade de filha amada de Deus. 
Eu quero entregar-me a Vós como o rio se entrega ao mar. 
Assim seja. Amém.

domingo, 18 de janeiro de 2015

ORAÇÃO E SABEDORIA

“Mas a sabedoria do alto é antes de tudo pura, depois pacífica, indulgente, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade nem fingimento” (Tg 3,17).

     Sabedoria é algo que falta nos nossos dias. Hoje eu conversava com uma mãe necessitada de sabedoria para governar sua casa e orientar os seus filhos. Diante dos apelos do mundo o que é certo, o que é errado? Como falar daquilo que sei ser o certo sem parecer radical ou até mesmo fundamentalista? Como dar a orientação certa de modo que atinja a mente e o coração daquele que precisa? Como tomar a decisão certa? Como viver de fato de acordo com a minha fé? São muitas as questões...

    Sabedoria é um dom de Deus que recebemos pela graça, na oração. Oração e sabedoria estão intimamente ligados; alcançamos sabedoria pela oração.  Mas é também um aprendizado. Como assim? Pela intimidade com o Senhor na oração vou aprendendo a viver como Ele: “Mas nós temos o pensamento de Cristo” (1Cor 2,16). Para viver com sabedoria é preciso que minha mente se aquiete. Aquietar-se e não deixar que nenhuma palavra do Senhor caia por terra: “Maria conservava todas essas coisas, meditando-as em seu coração” (Lc 2,19).

       Como no mundo agitado de hoje nossa mente pode aquietar-se? Creio que ajuda ter um ritmo de vida mais tranquilo. Sei que são muitas as solicitações e o redemoinho do mundo nos atrai. Ou pensamos que precisamos fazer tudo e nos preocuparmos com tudo a nossa volta. Mas preciso parar e perguntar-me: com o que Deus quer que realmente eu me preocupe e me ocupe? 

      Sabedoria é aprender que não preciso ter tanta pressa. Aquiete seus passos e seu coração se aquietará. Olhe o ritmo da natureza, siga a respiração do universo; aceite o convite do salmo: “Tudo que respira louve o Senhor!” (Sl 150). Viva o ritmo das estações do ano. Todas elas são necessárias para o equilíbrio da terra, da natureza. Não reclame de nenhuma estação de sua vida e do ano. Viva cada uma com alegria e suavidade e o Senhor te dará sabedoria.

      Olhando para nós mesmos vemos que geralmente há o desejo de amar mais, de aceitar, de perdoar, de viver livre da culpa, de ser mais humilde..., mas vemos também que há muitas pedras, muitos obstáculos no caminho. O exercício que fazemos para nos tornar pessoas melhores muitas vezes nos cansa. Só vencemos verdadeiramente as dificuldades quando o Espírito Santo vem em nosso socorro; quando fixamos o olhar no autor e consumador da fé: Jesus Cristo. Faça a experiência de ser conduzido pelo Espírito Santo. Ele “torna sábio o homem simples” (Sl 19,8).

Senhor Jesus, 
integra todas as coisas em mim... harmoniza o meu ser. Desperta o que ficou adormecido... acalme a minha mente. Livra-me do medo; do desejo de agradar a todos. Que a tua cruz seja fincada no centro do meu ser, e desta forma as minhas ações, forças e desejos, estejam submissas a vós, meu Senhor e meu Deus. Que tudo se cale e o Senhor se levante. A mente dispersa e a ansiedade roubam minha energia e trazem o cansaço. São brechas por onde o inimigo me ataca. Livra-me Senhor do caminho enganoso, conduze-me pelo caminho da vida. Amém.

domingo, 11 de janeiro de 2015

FECHANDO UM CICLO

   

     Esquecendo o que fica para trás, lanço-me em perseguição do que fica para frente. Corro para a meta, para o prêmio celeste, que Deus nos chama em Cristo Jesus. 
(Fl 3,13-14).

    

   De tempos em tempos precisamos fazer uma peregrinação interior para ver onde estamos e para onde vamos e se necessário fazer uma correção da rota. Você pode começar recordando as pessoas que passaram por sua vida – as que te fizeram o bem e as que te fizeram mal. Comece com seus amigos de infância, colegas da escola... Nesta recordação da vida podemos nos lembrar de pessoas que havíamos esquecido. Amizades que foram muito importantes em uma fase da vida e que se perderam no tempo, com as quais perdemos contato.

     Podemos identificar no modo como nos relacionamos com nossos amigos de infância semelhanças com o modo como nos relacionamos com as pessoas hoje.  Podemos experimentar gratidão e abençoar os amigos verdadeiros e todas as pessoas que nos fizeram o bem. E pela graça de Deus podemos perdoar as pessoas que nos fizeram mal – os falsos amigos, os que nos agrediram, manipularam, traíram a confiança, abandonaram, acusaram, caluniaram... Podemos orar assim: Eu as perdoo de todo o coração, e peço que o Senhor cure as feridas que ficaram destes relacionamentos. Em nome de Jesus, desato qualquer laço que me liga a essas pessoas, e peço que o Senhor as abençoe. Amém.

      O segundo passo é pedir perdão a Deus pelos pecados: Perdão, Senhor, pelos meus pecados; peço perdão por meus erros e enganos que me levaram por um caminho tortuoso. E peço perdão pelos meus erros a todas as pessoas que passaram pela minha vida ou fazem parte dela agora a quem eu fiz ou desejei o mal. Que o seu amor e misericórdia se estenda sobre todos. Amém.

     Grande sabedoria é aceitar a cura de Deus. Deixar o passado e ir para frente, rumo à meta. Viver o presente – aceitar que eu não sou mais a mesma pessoa de um ano atrás. Tomar posse da minha vida e do que Deus fez em mim, por mim e através de mim.

      Como Jesus, que viveu a maior parte da sua vida em Nazaré como o filho do carpinteiro, aceitar o chamado a viver na simplicidade, encontrando alegria nas pequenas coisas. Tomar posse do hoje. Hoje é o dia da salvação, o tempo propício em que o Senhor diz: “Estou aqui para ti salvar. Sou o teu redentor”. Acolher os sofrimentos e fracassos que a vida nos trouxe como ajuda para o despojamento e o desapego. São mestres que me ensinam o serviço desinteressado, se aprendo a lição me levam a amar e perdoar mais.

    Reconhecer que precisamos retomar o caminho, ter como projeto viver a vida, saborear a vida, prestando atenção a voz intima do Amado. Deus é amor. Ele fala no mais profundo do nosso ser: “Te amo com amor eterno. Eu te cerquei de cuidados e todo amor que você precisa está a sua disposição. Abra-se para receber o meu amor. Deixe de lado o desamor que você experimentou e tenha coragem de deixar-se amar. Não se deixe abater. Levante-se e vá, eu caminho com você todos os dias de sua vida. Renovo sua unção batismal, te dou sabedoria, graça e paz. Não tenha medo, viva no meu amor”.

Senhor, dá-me equilíbrio em meus relacionamentos. Dá-me a liberdade para amar e ser amado. Estar em comunhão contigo, ó meu Deus, é o que me faz vencer o medo e ter coragem para caminhar sobre as águas turbulentas desta vida. Amém.

domingo, 28 de dezembro de 2014

VIVER NO AMOR


    “Não tenhas medo, pois eu te resgatei, chamei-te pelo nome, tu és meu! Se tiveres que passar pela água, estarei ao teu lado, se tiveres que varar rios, eles não te submergirão. Se andares pelo fogo, não serás chamuscado, e as labaredas  não te queimarão” (Is 43,1-2).

       Quando atendemos as pessoas no ministério de cura interior percebemos que uma das coisas mais difíceis para o ser humano é acreditar plenamente que é amado por Deus. De tal forma fomos marcados por alguma espécie de rejeição que não acreditamos que o Senhor possa nos amar como somos e como estamos. Para fugir do amor de Deus colocamos uma máscara e usamos as mais variadas formas de desculpas – geralmente colocamos a culpa em Deus, na Igreja, na nossa família e em nós mesmos.

         Na vida passamos por muitas coisas, mas, se confiamos no Senhor, ele nos socorre em todas as dificuldades. E quando nos aquietamos sob sua mão  amorosa, quando permitimos que ele cuide de nós, sentimos, com a experiência do seu amor e cuidado, mais alegria do que com todos os bens da terra. A presença de Deus nos alegra o coração.

     Você é o amado, a amada de Deus. Não tenhas medo. Na sua vida há o amor tão grande, tão forte, que abarca tudo, que vai muito além do que você pode imaginar. Deus te ama. E se você permitir e acreditar nesse amor, esta realidade é suficiente para curar as feridas do abandono e as carências que o desamor causou em sua alma. Deus Pai/Mãe jamais te abandonará. Ele caminha com você e te dá força e proteção necessárias para passar pelo fogo dos sofrimentos e pelas águas da impotência. O Senhor te assiste em todos os perigo.

“Permitiste que homens cavalgassem sobre nossas cabeças; passamos pelo fogo e pela água, mas tu nos trouxeste à abundancia”. 
(Sl 66(65),12).

     Mesmo que os dias sejam de deserto, que aconteça uma seca prolongada em sua vida creia que no seu interior esta fonte nunca cessará de jorrar. Ela vem do Espírito de Deus. Dela vem água suficiente para matar a sua sede e você ainda pode repartir essa água com os que se aproximarem. Humildemente reconheça que seu coração é ferido, mas da ferida brota uma fonte de água. No encontro com o Senhor Jesus, a ferida de dor se transforma em ferida de amor. A ferida curada por Ele se torna uma fenda no coração por onde brota a água do Espírito, água que é balsamo para você e para os que estão próximos.

Oremos com confiança:

     Senhor Jesus Cristo, estou aqui na tua presença e te agradeço, pois em vós encontro compaixão, abrigo, misericórdia. Renuncio a toda forma de autodefesa ao seu amor. Reconheço que o Senhor é o meu consolo em todas as situações – no desamor, doenças, depressão, tristeza, desamparo, solidão, fracassos, cansaços, desesperança...  O Senhor me leva a atravessar o vale profundo da sombra da morte e chegar ao mais intimo do meu ser, meu templo interior onde o Senhor habita, onde sou amada e curada, onde há consolação, paz e alegria; onde jorra a fonte perene da vida. Que brilhe, Senhor, a vossa luz diante dos seres humanos, especialmente os que me são caros. Assim seja. Amém.

“Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior correrão rios de água viva” (Jo 7,38).

“O mais importante é deixar que o Senhor me encontre e me acaricie com carinho” . (Papa Francisco)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

VINDE! VINDE!

   “Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que nos instrua em seus caminhos e caminhemos em suas veredas” (Is 2,3). 
     
    Amados, como uma criança que descobriu algo muito bom, chamemos uns aos outros: Venha, venha! É o próprio Senhor que nos convida pela voz do profeta: Vinde.  Convida para quê? Para deixar antigos hábitos, antigo modo de ver a vida, deixar os caminhos já batidos pelos nossos pés... caminhos por onde já nos cansamos de passar e neles não há mais novidade de vida. Caminhos que nos cansam e nos amarram em suas teias. Deixar o costume antigo - que até nos ajudou por um tempo – como se deixa uma roupa velha que, de tanto ser usada, já tomou a forma do nosso corpo.

      O Senhor nos convida a olharmos para o alto e começar ou recomeçar a subir o monte. Mas atenção, não é qualquer monte, mas o monte do Senhor. Dele receberemos uma veste nova – a renovação das graças do batismo. Percebemos que há alegria nesse convite, se o coração estiver aberto. Vamos a um lugar definido: à casa do Senhor. Com um objetivo claro: ser instruído e caminhar à luz do Senhor.

         Por mais auto-ditada que a pessoa seja ninguém se instrui de fato sozinho. É na comunidade dos discípulos de Jesus que seremos instruídos. Hoje em dia muitos querem viver a fé cristã sem Igreja, sem a participação em uma comunidade de fé. Mas devemos ter sempre presente que Jesus fundou uma Igreja (cf. Mt 16,18) – formou uma comunidade com os doze apóstolos e os formou durante três anos. Se Ele desejasse um culto solitário Ele mesmo poderia ser um solitário, como João Batista. Podemos perceber também que o convite é feito no plural: subamos, nos instrua, caminhemos.
   
    Aceitar esse convite requer de nós um coração aberto, humilde e desapegado. Nos apegamos facilmente a muitas coisas, mesmo sabendo que não são boas para nós, que só nos causam sofrimento. Coragem! Se aceitamos o convite o Senhor nos dá a mão para subirmos. Se aceitarmos o convite o Espírito Santo encherá nosso coração de alegria e luz: “Vinde, casa de Jacó, caminhemos à luz do Senhor” (Is 2,5). 
A luz simboliza vida e alegria. Muito mais a luz de Deus iluminará as áreas mais escuras e escondidas do nosso ser se aceitarmos o convite do Senhor para estarmos mais perto dele. Vinde!

Vem Senhor Jesus. 
Vem curar a cegueira, revolta, medo, mágoa e ressentimento. 
Curar o sentimento de não ter sido desejado, de não ter sido amado, que amarga a nossa vida. 
Queremos deixar tudo isto como uma roupa velha ao pé do monte e subir para uma vida nova de amor e paz. 
Restituí-nos a alegria da salvação, a alegria de viver. 
Dá-nos fraternidade, esperança, fé e amor. 
Que a luz do teu Espírito expulse as trevas do nosso coração. 
Amém.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

VIDA E MORTE


“Deixa que os mortos enterrem os seus mortos;” (Lc 9,60).
      

    Constantemente experimentamos estas forças contrárias dentro de nós: vida e morte; luz e trevas; esperança e desespero; alegria e tristeza. Temos sempre diante de nós dois caminhos (cf. Sl 1), e a cada dia, até mesmo a cada momento precisamos escolher. Em que consiste esta luta? No discernimento e sabedoria que nos faz escolher a vida, a luz, a esperança, a alegria. Discernimento e sabedoria que são dons do Espírito Santo.

      Vida e morte. Recebemos o dom da vida como um presente de Deus – a vida vem de Deus e está em nós, mas não nos pertence. Junto com a força vital que recebemos quando fomos concebidos pode ter vindo a força da morte se, por exemplo, fomos gerados, nascemos e vivemos nossos primeiros anos de vida num tempo em que houve mortes na família. Esta força da morte pode ser a raiz da tendência à melancolia, tristeza e depressão presente em nós.

      Luz e trevas. Em outros casos quando fomos gerados nossos pais podem ter colocado uma expectativa exagerada sobre nós. Expectativas do tipo: “esta filha, este filho, será minha alegria e consolo; virá para preencher minha solidão e o vazio do meu coração, etc”. Se houve antes um aborto esta expectativa tem ainda mais força, pois a criança concebida carrega muitas vezes a responsabilidade de viver a vida da irmã ou irmão que morreu. A força das trevas podem se cristalizar em nós e se manifestar como autossuficiência, orgulho, perfeccionismo, obsessão, etc. Esta situação impede a vivencia plena do senhorio de Jesus, pois só deixo a luz do Senhor iluminar a superfície, mas o meu ser profundo é como um iceberg com sua maior parte na escuridão, onde eu reino, onde não permito que a luz do Senhor entre e me converta.

    Esperança e desespero. A esperança vem do amor de Deus: “E a esperança não engana, pois o amor de Deus se derramou em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5,5). Mas quando vivemos ligados à tudo de mal que acontece no mundo, as vãs preocupações podem nos levar ao desespero. Isto é uma ilusão, pois não podemos dar conta de tudo o que acontece no mundo! O desespero não nos deixa ver a bondade e o amor presente nas pessoas e no mundo. Temos esperança porque o Senhor está no meio de nós, caminha conosco, mesmo se, como aconteceu com os discípulos de Emaús, não o reconhecemos na maior parte do caminho.

     Alegria e tristeza. A alegria é fruto do Espírito Santo. Sua fonte é como uma nascente de água que brota do solo ressequido do nosso coração, na aridez da nossa vida. Às vezes não nos damos conta de como a tristeza nos faz mal – se a ela nos entregamos se torna um câncer em nossa alma. Na tradição monástica antiga a tristeza é vista como o oitavo pecado capital. Vejamos o que nos diz o livro do Eclesiástico: “Não entregues tua vida à tristeza nem te atormentes com tuas reflexões. A alegria do coração é a vida da pessoa, e o contentamento lhe multiplica os dias. Distrai-te, consola teu coração: expulsa a tristeza para longe de ti. Pois a tristeza já causou a perdição de muitos e não traz proveito algum” (Eclo 30,21-23).

    Deixar que os mortos enterrem os seus mortos... Ás vezes somos teimosos e nos agarramos a pessoas, coisas e situações de morte ou que estão mortas para nós. O que passou, passou. O mal e o bem que nos fizeram, que nos aconteceu e que nós fizemos ou deixamos de fazer, não volta mais. Está na misericórdia de Deus. Entregue com toda confiança a sua vida nas mãos amorosas do Pai, pois Ele cuida de nós. Mesmo se você foi gerado em tempo de morte, rejeitado, maltratado, abandonado... você sobreviveu. Sobreviveu porque o Senhor cuidou de você e providenciou o necessário para sua vida. Vamos à Ele com cantos de alegria e gratidão pelo maravilhoso dom da vida.

    Senhor, nosso Deus e Pai. 
Colocamo-nos na tua presença, entramos no teu santuário com humildade e gratidão. Gratidão pelo dom da vida, e alegria, pois o Senhor cuidou de nós. A ferida aberta em meu coração pelos sofrimentos da vida foi curada pela chaga aberta no Coração de Jesus, nosso Redentor.                    Pai, em teu amor, pelo sangue de Jesus, Cordeiro imolado, eu perdoo a todos os que me feriram. E hoje mais uma vez eu me abro para receber o seu amor e a vida que vem pela força do Espírito Santo. Obrigada, Senhor, pela vida. Amém.  

sábado, 1 de novembro de 2014

COMBATE ESPIRITUAL

    “A nossa luta não é contra forças humanas mas contra os principados, contra as autoridades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos maus dos ares” (Ef 6,12).
   
   O combate espiritual é uma realidade infelizmente desconhecida pela maioria dos cristãos. Se por um lado há quem veja demônio em tudo, por outro lado há quem negue sua existência e não o veja em nada. Mas nenhum destes modos de agir nos faz crescer no discernimento dos espíritos e no combate espiritual. 

   Não podemos negar a realidade do mal. Se o Maligno não existisse Jesus não terminaria a oração do "Pai nosso" (Mt 6,9-13) pedindo ao Pai que nos livre do mal. O Catecismo da Igreja Católica, no número 2851, fala assim sobre este pedido de Jesus: “Neste pedido, o Mal não é uma abstração, mas designa uma pessoa, Satanás, o Maligno, o anjo que se opõe a Deus. O diabo (dia-bolos) é aquele que se atravessa no meio do plano de Deus e de sua obra de salvação realizada em Cristo”.

    A principal ação do demônio é a tentação. Nisto consiste a batalha espiritual: o demônio nos tenta para nos afastar de Deus. Para vencer o tentador precisamos vigiar e usar o escudo da fé (Ef 6,16). Vigiar quer dizer prestar atenção em quem está agindo numa determinada situação: o maligno que quer nos afastar de Deus e dos irmãos; nossa vontade humana dominada pelo orgulho, o egoísmo e as paixões desordenadas; ou o Espírito Santo que nos atrai para a vontade do Pai e nos dá força para vencermos o tentador. Vivemos esta batalha o tempo todo durante a nossa vida. É uma batalha sem trégua, que acontece dentro de nós e ao nosso redor. Discernir qual o espírito está agindo em nós e na situação presente é algo que não conseguimos fazer sozinhos. Precisamos do Espírito Santo, “o Espírito da verdade” (Jo 16,13).

    O combate espiritual é uma luta disfarçada e precisamos da prudência das serpentes e a simplicidade das pombas (Mt 10,16) para vencê-lo.  Ao discípulo de Jesus o mal costuma atacar conforme nossa fraqueza. Muitas vezes depois de uma ação evangelizadora nos vem um cansaço espiritual – o maligno nos tenta nos fazendo pensar que aquela ação não valeu para nada. Outras vezes nos tenta pelo orgulho e pela vaidade nos fazendo deleitar com o pensamento de como, por nossa causa, aquela ação foi boa. Outras vezes se manifesta no desânimo ou nos faz dar sem medida até nos esgotarmos. 

    Precisamos caminhar no discernimento dos espíritos para vencer a batalha espiritual e desmascarar o tentador. Desmascaramos o tentador quando estamos unidos ao Espírito Santo na oração. A arma mais poderosa contra os ataques do maligno é a mansidão e humildade (Mt 11,29).

Senhor
nos colocamos na sua presença, pedindo que o teu Espírito Santo venha agir em nós. Ó vem Espírito de Amor, dá-nos discernimento para combater o bom combate. Que nada nem ninguém nos faça tirar os olhos de Jesus, nosso Senhor e Salvador. Pai, por nosso Senhor Jesus Cristo vos pedimos, livra-nos do mal. Amém.

 “Bendito seja o Senhor, minha rocha, que adestra minhas mãos para o combate, meus dedos para a guerra.” (Sl 144(143),1)