E o deserto florescerá!

E o deserto florescerá!

quarta-feira, 23 de março de 2016

FOI POR AMOR

Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco antes de sofrer (Lc 22,15).

       Neste texto do Evangelho é revelado o ponto alto da história da salvação:  o amor de Deus que nos deu o seu Filho para nos salvar e reconciliar com Deus, conosco mesmo, com os outros e com a criação. Por amor Jesus se entrega num processo de esvaziamento. Nunca podemos esquecer: foi por amor. Por AMOR.

      Ele, subsistindo na condição de Deus, não se apegou à sua igualdade com Deus. Mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo, tornando-se solidário com os seres humanos. E, apresentando-se como simples homem, humilhou-se, feito obediente até a morte, até a morte numa cruz (Fl 2,6-8).

     Como Jesus tornou-se solidário com os seres humanos? Ele entrou na nossa história. Uma história marcada pelo pecado, pelo orgulho e egoísmo, pelo afastamento de Deus, e por isto, pelo sofrimento. Ele aceitou viver a nossa vida, morrer a nossa morte, para nos ressuscitar com Ele.

      As consequências de entrar na história humana foi viver o que todos nós vivemos: a traição, a negação, a condenação à morte. A incoerência do ser humano revelada nos gritos de júbilo e de desprezo da multidão: Hosana! Crucifica-o! Mas Jesus experimentou também a bondade humana na ajuda de Simão de Cirene. Quantas vezes no calvário da nossa vida encontramos um cirineu para nos ajudar a levar nossa cruz.

      Talvez algo nos passe despercebido no grande drama da Paixão: o mundo se levanta para julgar Deus! O ser humano, na loucura do orgulho, pensa que está apto a julgar o próprio Deus! Vemos isso hoje nas ideologias que governam o mundo e pouco a pouco vão manipulando o pensamento humano e nos fazendo pensar que o certo se tornou errado. Exemplos claros do julgamento de Deus pelo homem: O aborto e a ideologia de gênero. No caso do aborto temos uma sentença de morte contra um ser humano negando a ele o direito mais fundamental: o direito à vida. Na ideologia de gênero vemos que o ser humano se coloca no lugar de Deus e quer revogar a lei mais básica da vida: E Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher ele os criou (Gn 1,27).

      Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai (Papa Francisco). Deus não se cansa de perdoar, de esperar por nós, e de nos buscar para nos dar uma vida nova. Crucificado, Jesus perdoa: (Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem. Lc 23,34), e se entrega nas mãos do Pai: (Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. Lc 23,46). O Pai o ressuscitará: A este Jesus Deus ressuscitou, e disso todos nós somos testemunhas (At 2,32).     

       A Cruz de Cristo é a única coisa estável neste mundo em convulsão. Tudo mais passará. Tudo passa. As ideologias, os ditadores e poderosos deste mundo, a dor e a morte... tudo passa. A Cruz levantada no Calvário fica estável. Os poderes do mal e do mundo nada podem contra ela: Jesus Cristo é o mesmo ontem hoje e por toda a eternidade (Hb 13,8). Se ficarmos aos pés da Cruz com Maria, as outras mulheres e o discípulo amado, estaremos protegidos do poder das trevas. Nossa vida está fincada na Rocha que é Cristo.

      Que nesta Páscoa o Espírito Santo nos ajude a levarmos a Cruz de Cristo como discípulos, dando testemunho com nossa vida. E juntos com Jesus possamos também nós levar a nossa cruz – os pecados, traumas, doenças, traição, rejeição, violência, abandono, solidão, morte... A Cruz de Cristo nos leva ao céu. E nós levamos nossa cruz ao céu, pois somos salvos com nossa história de vida. Assim, unimos nossa passagem por este mundo à Páscoa do Senhor.

“Teu sangue nos lava
 Teu fogo nos queima
 O Espírito Santo inunda meu ser”.

Feliz Páscoa!!!

sexta-feira, 18 de março de 2016

MISERICÓRDIA E SACRIFÍCIO

    Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a tua misericórdia; segundo a tua grande clemência, apaga minhas transgressões (Sl 50(51),3).

Para ajudar sua meditação pegue sua Bíblia e leia o salmo 50(51).

      Quando falamos de conversão é comum usar a imagem de uma escada ou de um caminho que vai da escuridão para a luz. Este salmo faz esse caminho ou sobe essa escada e nos ajuda a fazer o mesmo. É a passagem do pecado para a graça.

      Ele começa num reconhecimento de que somos salvos pela misericórdia de Deus, que por nós mesmos não podemos nos libertar do jugo do pecado. Nos versículos 3-11 descreve o reino do pecado, e o sofrimento do ser humano escravo do pecado. O salmista tem consciência de que está imerso no pecado como todo ser humano: Eis que nasci culpado, e pecador minha mãe me concebeu. E o pecado, que faz parte da natureza humana, me leva a praticar atos maus como ele reconhece: Pequei contra ti... pratiquei o mal diante de teus olhos. 

     Do versículo 12-19 o salmista levanta os olhos para Deus, que ele reconhece como o único capaz de libertá-lo da situação de escravidão em que vive. É a passagem para o reino da graça. É nascer de novo, é viver em Cristo. A ação da graça de Deus em nós nos dá um coração santo, puro, um espírito decidido, e nos torna generosos – prontos a anunciar a salvação de Deus. 

     Pela graça e misericórdia vamos subindo a escada, saindo de um ar malcheiroso e poluído para respirar um ar puro e agradável. Ou saímos do caminho escuro para o campo aberto cheio de luz. O mundo novo, a vida nova que Deus cria em nós.

    Este é o sacrifício agradável à Deus: a passagem do reino do pecado para o reino da graça (v. 19). E este é um autentico sacrifício. Deixar nossos hábitos, condicionamentos, ilusões e o apego ao pecado, e permitir que o Espírito Santo nos torne novas criaturas é o maior sacrifício que uma pessoa pode fazer. Na verdade eu vos digo: se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, ficará só; mas se morrer produzirá muito fruto (Jo 12,24). Morrer com Cristo e ressuscitar para uma vida nova. Permitir que o Senhor, pouco a pouco, vá restaurando em nós a imagem e semelhança de Deus que perdemos pelo pecado. Esse é o sonho de Deus para todo ser humano. E na sua misericórdia ele não se cansa de perdoar, de nos buscar, curar e salvar. Ele quer nos dar vida e vida em abundancia.

O salmo termina com a manifestação da gratidão de quem viu que seus pés foram soltos do laço (20-21). O pecado de Adão e Eva nos tornou escravos, mas Jesus Cristo desatou o nó do pecado que nos prendia. Vivendo nossa vida e morrendo nossa morte. Ressuscitou e nos ressuscita com Ele para uma vida nova.

      Senhor, que venha a nós o teu reino. Reino da graça, misericórdia, paz e alegria, no Espírito Santo. Dá-nos coragem para passar do reino do pecado para o reino da graça. Ó vinde Espírito Santo, conduze-nos nos caminhos desta vida rumo ao céu, onde Cristo será tudo em todos. Seremos transformados em Cristo, o primogênito de uma multidão de irmãos, para a glória de Deus Pai. Amém

domingo, 6 de março de 2016

ETERNA É A SUA MISERICÓRDIA

Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso (Lc 6,36)
Como Deus é misericordioso?
    O nome de Deus é o Misericordioso. Ele ama com o um amor visceral, comparado ao amor da mãe que embala o filho, que caiu ou levou um susto, junto ao seu rosto – é um amor maternal multiplicado até o infinito. O coração de Deus transborda de ternura para com você, e os diferentes amores que experimentamos na vida (materno, paterno, fraterno, conjugal ou amizade) são um pálido reflexo do amor total de Deus.

Em Jesus se manifestou plenamente a misericórdia de Deus: "Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai" (Papa Francisco).

    Deus é aquele que te vê, mas o seu olhar é amor e traduz sua infinita misericórdia. Vê sua bondade, seus dons e talentos e te convida a crescer. Vê o mal que existe em você, vê o seu pecado e te oferece o perdão que te salva. Não te acusa, mas te defende e protege. Ele é o abrigo mais seguro. 
    “Deus se apaixonou por esta miséria, justamente por essa pequenez. E este amor “se vê”, é um amor terno, como o de um pai ou de uma mãe. E o Senhor diz: ‘não tenha medo, pequenino, não tenha medo. Eu lhe darei força. Dê-me tudo e Eu o perdoarei, lhe darei paz’”. (Papa Francisco).
   Então, deseje que Ele te olhe até as profundezas mais secretas do teu ser. Entre você e Deus existe uma relação que nada pode destruir: Sou o teu Deus, tu és o meu filho. Filhos no Filho, Jesus Cristo.  A misericórdia de Deus mostra o pecador a si mesmo, o coloca face a face com a verdade, sem medo e sem raiva, porque em Cristo é possível a reconciliação.

    Para isso a misericórdia de Deus precisa mudar o que está gravado no consciente e no inconsciente. A misericórdia de Deus não só perdoa a culpa, mas revoga a sentença de morte escrita em nossa vida: Pois o salário do pecado é a morte... (Rm 6,23). Deus compreende misericordiosamente o pecador, no mais profundo do ser e o vê através do sacrifício do Filho, de modo que a mais íntima realidade do pecador não é o pecado, mas ser filho. A restauração do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus e desfigurado pelo pecado, deve ser vista à luz da misericórdia de Jesus Cristo que “me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).

Como vivemos a misericórdia?

 Ide e aprendei o que significam as palavras: Quero misericórdia e não sacrifícios. Porque não vim chamar os justos, mas os pecadores (Mt 9,13).

Qual é a exigência para que uma pessoa receba a misericórdia de Deus?
Reconhecer-se pecador, pedir perdão e converter-se. Reconhecer que somos todos devedores e que o débito é impagável.

  Para sermos misericordiosos precisamos receber misericórdia. Receber e dar misericórdia é permitir que o Espírito Santo forme em nós o rosto de Cristo, o rosto da misericórdia do Pai. “A Igreja é a comunidade daqueles que, em união, experimentam com gratidão a misericórdia de Deus” (D. Bernardo Bonowitz).

 Qual a dificuldade que encontramos?
Às vezes ficamos apegados ao nosso pecado. Queremos vencer pelas nossas forças. Isso só nos leva à frustração. A libertação está em encontrar primeiramente, não a si mesmo, mas a salvação em Cristo. Esse encontrar é a descoberta, na graça e na fé, de que somos misericordiosamente amados e compreendidos, e pelo Espírito Santo somos capacitados a compreender os outros com misericórdia e compaixão.

“A misericórdia cura tudo”. Cura as feridas da alma, do corpo e do espírito. Cura a sociedade e a história. “É a única força que realmente pode curar e salvar... A misericórdia cura a raiz da vida, curando o desespero que projeta seu próprio mal no outro como uma exigência e uma acusação.” (Thomas Merton).

     Senhor nosso Deus, fornalha ardente de amor e misericórdia. Fogo que queima sem consumir. Perdoa os meus pecados e minhas rebeldias. Que eles sejam como gravetos que alimentam a chama da vossa compaixão e misericórdia.  Cura as feridas da minha vida. Vem Espírito Santo, formar em mim o rosto de Jesus Cristo, o rosto da misericórdia do Pai. Amém.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

O REINO DENTRO DE NÓS

Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, senão justiça, paz e alegria no Espírito Santo ( Rm 14,17).

     Em Jesus Cristo o Reino de Deus veio até nós.  Mas antes de se estabelecer no mundo o reino precisa ser estabelecido dentro do coração de cada ser humano. Mas como guardamos reserva de grande parte de nosso ser, muitos vivem um cristianismo superficial, sem se converter de fato. Como se estabelece o reino dentro do nosso coração? Como posso, num mundo em convulsão, usufruir dos benefícios da salvação em Jesus - amor, misericórdia, paz e alegria?

   Para que o Reino de Deus seja estabelecido dentro de nós precisamos voltar, pela graça da salvação em Jesus – sua vida, paixão, morte e ressurreição –, à amizade com Deus.

    No seu amor infinito, ao criar o ser humano, Deus colocou dentro de nós um mundo. Dentro de nós há terras, mares, rios, desertos... Terras desconhecidas que precisam ser evangelizadas, onde Jesus precisa reinar.

Domine ele de mar a mar, desde o rio até os confins da terra! Os habitantes do deserto se curvarão diante dele, e seus inimigos lamberão o pó. (Sl 72/71,8-9).

     Dentro de nós é o lugar onde primeiro precisa ser estabelecida a paz. Nosso mundo interior precisa ser o reino de Jesus. Ele quer reinar de mar a mar. Nossas rebeldias, nossos pecados - os habitantes do deserto - precisam se render ao Senhor. Os confins da terra – aquelas áreas dentro de nós que são nebulosas e desconhecidas – precisam estar sob o senhorio de Jesus. Para vivermos o Reino de Deus precisamos permitir que o Senhor Jesus governe nossa vida sem reserva. Só quando o Senhor for o rei do nosso mundo interior é que o Reino de Deus acontecerá em nós.

É uma maravilhosa obra da graça, é um milagre que Deus realiza em nós pelo Espírito Santo. É nascer de novo.

     Então, neste dia, que o Senhor espera ver ansiosamente, quando o seu reino se estabelecer dentro de nós, haverá a paz. Assim poderemos ser portadores do reino para todos à nossa volta. Seremos o fermento na massa, tornando o Reino de Deus presente no mundo, na sociedade em que vivemos. Nos relacionaremos com Deus, como nosso Pai, com os homens como irmãos, e com a criação como dom de Deus.

Que haja no país trigo em abundancia, ondulando no topo dos montes; seu fruto será como o Líbano, e os cidadãos floresçam como a erva do campo (Sl 72/71,16).
Vem, Espírito Santo, enche-me da graça de Deus. Faz-me nascer de novo. Complete, ó Senhor, a obra de vossas mãos. Que todo o meu ser seja aberto para Deus. Rompe minhas resistências, ideologias e o apego ao meu projeto de vida. Vem Espírito Santo, seduza o meu coração para Deus. Lava-me, cura-me, dá-me uma vida nova em Cristo Jesus. Amém.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

OLHAR O CÉU

     Os céus narram a glória de Deus e o firmamento proclama a obra de suas mãos (Sl 19/18,12).

      Em seus últimos anos de vida santo Inácio de Loyola tinha o costume de subir ao terraço de sua casa em Roma e contemplar o céu estrelado. Contemplando as estrelas ele sentia muita consolação e grande desejo de servir a Jesus Cristo, Nosso Senhor. O céu estrelado levava Inácio de Loyola a contemplar a glória de Deus e lhe aumentava o desejo de anunciar Jesus Cristo.

     Que significado o céu estrelado, o sol, a lua, as nuvens, a chuva... enfim, os elementos da natureza podem ter para nós, homens e mulheres, do século XXI? Será que, na agitação que nos envolve e nos cansa, a nossa mente agitada ainda se lembra de olhar para o céu? Geralmente o que nos domina é o medo e a preocupação exagerada. A inquietação da mente gera – e muitas vezes não percebemos - cansaço e raiva. Cansaço, pois parece que não daremos conta de tantas solicitações, e que trabalhamos em vão. Raiva, porque nos vemos impotentes diante das más notícias do mundo. Por outro lado quem ainda, mesmo buscando, consegue ver o céu estrelado? As luzes da cidade há muito esconderam as estrelas.

Olhar o céu...    

Os céus narram a glória de Deus. Atesta-nos que há um Criador, que nos criou por amor, e não abandonará jamais sua criação. A cura para nós e para o mundo está na confiança no amor e misericórdia do Pai, que nos entregou o seu Filho único para nossa salvação, e nos deu o Espírito Santo, como filhos amados. 

Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo aquele que nele crer não morra mas tenha a vida eterna (Jo 3,16).

    Olhando para o céu somos convidados a alçar voo no sonho de Deus para nós. Nos libertar das garras do desespero, da solidão e do medo, e ouvir o Senhor dizendo: “És meu filho, minha filha amada. Eu cuido de você”.

    Olhar o céu... ficar em silêncio... contemplar a marcha dos astros... lembrar que o ser humano pode ferir a natureza, mas não a dominará jamais.  Desapegar-nos da força do mal, da tristeza, angústia e desesperança, e recebermos a consolação do Espírito Santo. Respirar o ar puro da graça, viver uma vida sobrenatural neste mundo.

 Sim Senhor! 
Eu digo sim ao seu amor e misericórdia. 
Leve-me a voar nas asas dos teus sonhos. 
Liberta-me da opressão do mal, que me abate e  quer me convencer de que não sou digna do seu amor. 
O Senhor me perdoa, me cura e me ama com amor eterno. 
Amém.

domingo, 17 de janeiro de 2016

SONDA-ME, Ó DEUS

    Porque a palavra de Deus é viva, eficaz e, mais cortante do que uma espada de dois gumes. Penetra até dividir a alma e o espírito as juntas e a medula. É capaz de julgar os pensamentos e intenções do coração (Hb 4,12).

      Duas belas realidades são colocadas lado a lado nesse versículo da Bíblia: A ação de Deus pela sua palavra, e o ser humano, a quem Deus fala. Refletindo sobre o ser humano podemos nos perguntar: Quem se conhece realmente? Quem conhece verdadeiramente outro ser humano? Quem pode medir sua alma? Como saber sua largura, profundidade e comprimento? Como saber verdadeiramente se está saudável ou doente? Quem é capaz de sondar as profundezas do ser humano?

      A resposta a todas estas perguntas é uma só: Deus. Só Deus conhece verdadeiramente o ser humano por Ele criado com amor. Nós muitas vezes nos esforçamos, até arriscamos a dizer como está nossa alma, mas na verdade  sabemos muito pouco. O que pensamos estar bem pode estar mal... Deus não usa os nossos critérios para medir: Pois os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos – oráculo do Senhor (Is 55,8).

     O que podemos ver dentro de nós? Talvez um tanto de abertura para Deus e as pessoas...  muitas cicatrizes das feridas da vida... desejo de paz, de justiça... feridas abertas, que ainda não foram curadas – algumas inflamadas... desejo de ir ao encontro, de festejar, de fazer o bem... desejo de ficar em silêncio, de contemplar a beleza... desejo de amar e ser amada. Mas podemos ver também raiva, mágoa, ressentimento, falta de perdão, desejo de vingança, orgulho, vaidade, arrogância, egoísmo... Luz e trevas, joio e trigo, estão plantados juntos dentro de nós.

     Podemos perceber que ainda há camadas e camadas do nosso ser que não vemos claramente... mas Deus vê. Estas zonas, obscuras para mim, estão cheias da misericórdia, do perdão e da graça de Deus: Exulta, alegra-te filha de Sião, porque eu venho para morar no meio de ti – oráculo do Senhor (Zc 2,14).

     O Senhor ti ama com amor eterno. O seu amor é suave; desce como um óleo finíssimo sobre as feridas do corpo, da alma e do espírito. Alivia as dores, cura o que está inflamado, unta as cicatrizes, desce até o mais profundo do ser. E se espalha como chuva benfazeja sobre a terra árida. Só o amor de Deus pode nos curar assim, tão profundamente.

    O fogo dos acontecimentos da vida passa sobre nós e nos arrasa. O amor de Deus vem sobre nós e nos cura, nos dá vida nova. Não importa o quanto pecamos ou fomos feridos, não há nada impossível para Deus, nada que o Senhor não possa perdoar e curar.
                      
    O Amor veio até nós na pessoa de Jesus de Nazaré, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Ele fez-se igual a nós em tudo, menos no pecado (Hb 4,15). Veio para nos salvar. Nos amou com o amor do Pai, no Espírito Santo. Diante dele todo joelho se dobra. Jesus Cristo é o Senhor para a glória de Deus Pai (Fl 2,10-11).

Meu Senhor e  meu Deus, 
eu preciso de vós como do ar que respiro. 
Como viver longe da tua face? 
Tua presença é vida, se a retiras, volto ao pó. 
Um minuto na tua presença vale mais que anos longe de vós. 
O Senhor me sustenta com seu amor e misericórdia. 
Por isto peço: Vem, Espírito Santo! 
Vem, ó Senhor que dá a vida, doce hospede da alma, vem fazer morada em meu coração. 
Vem me curar e dar uma vida nova em Cristo Jesus. 
Amém.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

UM LUGAR DE PAZ

       Às vezes estamos tão envolvidos na correria e barulho do mundo que não percebemos ou nos esquecemos de que de tempos em tempos precisamos quebrar a rotina, sair no nosso lugar de conforto. Pensamos: estou bem aqui, e  todos os lugares são iguais. Mas desde o Antigo Testamento o povo de Deus foi chamado a se retirar a lugares especiais, lugares de peregrinação, em busca de Deus, de si mesmo e do encontro com o outro. Para não nos alongarmos pensamos aqui como lugar especial para os hebreus o monte Sinai ou Horeb (cf. 1Rs 19,8), e Jerusalém. Jesus, como era costume do seu povo, fazia a peregrinação anual a Jerusalém: Todos os anos, na festa da Páscoa, seus pais iam a Jerusalém. Quando ele completou doze anos, subiram a Jerusalém segundo o costume da festa (Lc 2,41-42).
            
          Os Evangelhos nos falam também de outro lugar onde Jesus se retirou para orar. Era costume de Jesus se retirar para orar. Então, por que esse lugar se tornou especial? Por causa do mistério que aconteceu nele: a transfiguração do Senhor. Um dia o Senhor Jesus chamou seus amigos para sair da agitação e solicitação do povo e se retirar com ele a um lugar afastado, um lugar que reconhecemos como um lugar de paz, pois a paz foi o fruto daquela noite de oração.

   ... Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte para orar. Enquanto orava, seu rosto mudou de aparência, suas vestes ficaram brancas e resplandecentes (Lc 9,28).

     Muitas vezes nós também sentimos o desejo de peregrinar a algum lugar – perto ou longe - para sair de nós mesmos, deixar o egoísmo, despojar-se, se por a caminho, num sinal que esta vida é uma peregrinação. Esse lugar pode ser um santuário religioso, um retiro de final de semana, uma visita a um hospital, ou simplesmente uma caminhada pela mata... Tudo o que nos leva ao encontro do outro e a fazer o bem. Mas não adianta ir em peregrinação à algum lugar se não fizermos a peregrinação dentro de nós mesmos, no desejo de nos encontrarmos com Deus.
     

    Se você sente em seu ser um desejo de algo mais, se as coisas do dia a dia não saciam mais sua alma, se o seu olhar se volta para o alto com sede e desejo do infinito, você está pronto para ouvir o chamado: “Vem”. O Senhor Jesus te chama como chamou Pedro, Tiago e João, para subir o Monte Tabor.

   Se você aceita o convite, caminha com eles durante a noite e se esforça para manter os seus passos seguindo os passos de Jesus. Ao subir o monte vem à sua mente uma revisão de vida – o bem que fizemos... o os erros que  cometemos... Suas necessidades, fraquezas, dons, sonhos, vitórias, derrotas... Todo o mosaico da nossa vida passa pela mente em pedaços maiores ou menores, segundo sua importância. A subida deixa a respiração ofegante...  Não importa. O importante é prosseguir.

       Enquanto subimos vamos descortinando um cenário diferente. Nossos olhos se acostumam com a tênue claridade da noite e podemos ver melhor – o contorno das colinas e das árvores, o céu cheio de estrelas...

      Há quanto tempo eu não vejo o céu estrelado? Há quanto tempo tenho me deixado endurecer pelas inquietudes da vida? Há quanto tempo tenho me fechado para o outro? Há quanto tempo tenho me fechado para a novidade da graça de Deus?

     A poluição, o barulho, as luzes da cidade, o ritmo frenético da vida moderna facilmente nos afastam do contato com Deus, conosco mesmo, com o outro, com a natureza. Hoje o Senhor vem nos reconectar com as coisas simples da vida, nos convida a subirmos o monte e olharmos para o alto.

Senhor Jesus, tu és a nossa paz! Entre agora no mais intimo do meu ser e me dê a tua paz. A paz que o mundo não pode dar. A paz que permanece em nós mesmo nos momentos de sofrimento, perdas, doenças... Ó Cristo Senhor, nossa paz. Aquieta o meu coração e minha mente. Dá-me repouso, consolo, abrigo, nos desafios da vida. Guardai-me no teu coração, meu Senhor e meu Deus. Amém.